ONDE ESTAVAS EM ABRIL DE 1974

Parece grotesco, ou talvez não, mas a realidade está bem presente na minha mente, era jovem, a caminho dos 14 anos, estudante na Escola Industrial e Comercial da minha cidade.
Como jovem, tinha bem patente na minha memória, as masmorras a que os meus familiares e amigos, pessoas mais velhas, haviam sido sujeitos, sofrendo na carne e no espirito a ousadia dos arruaceiros políticos que o regime de então, através da PIDE os havia submetido.
Apoiava-os na clandestinidade, em tudo o que me solicitavam, e apreendi com eles a ser revolucionário contra o regime salazarista, que proliferava em todos os sectores da sociedade.
Desde muito novo, tive sempre ideias próprias, e quanto a fecharem-me a boca, era coisa que nunca me passava pela cabeça, pois o meu julgamento era o respeito das ideias de cada um, mesmo que contrárias ás minhas.
Tempos difíceis é certo, mas que com alma, esforço e dedicação, nos tornou um Povo de cariz democrático e que a liberdade de expressão se impôs á claustrofobia da ditadura.
A liberdade é o bem mais precioso de que qualquer ser humano se deve orgulhar de ter e de proferir as suas ideias, expor os seus assuntos, e para que sejamos ouvidos também teremos que ter espaço para ouvirmos os outros, pois só ouvindo reconheceremos o nosso interlocutor, o que lhe vai na alma.
Na clandestinidade, reuníamo-nos, em casas de habitação, sempre de noite e com a entrada controlada, olhando para trás a ver se estávamos a ser seguidos.
Eram locais de discussão, locais de troca de ideias, compostas por todos os sectores da sociedade, onde se debatiam ideais que nos levassem a lutar pela liberdade, pela democracia.
Faziam-se panfletos, minúsculos, que eram deitados no chão á nossa saída das reuniões, como se fosse um alerta para o Povo, que estava deveras adormecido.
Isso teve consequências, na minha vida estudantil, até ao ponto de ser expulso de salas de aula, só pelo facto de não concordar e pelo facto de ser considerado de extrema esquerda.
Não me arrependo de nada, antes pelo contrário, não sou como muitos, que andavam pelos cantos, a obterem informações, que posteriormente passavam ao padre, que nos apelidava na missa do domingo seguinte de “comunistas”.
Também não sou como outros, que debandavam quando se sentiam apertados, e hoje dizem-se os mentores da liberdade, querendo fazer querer que sempre foram os defensores da democracia, mas só quando a chamada época quente passou a que viram o “furo” na politica e se apropriaram dela.
Sou um democrata sério, mas intransigente, defendi a liberdade e continuarei a defende-la até ao fim dos meus dias, não pactuarei com maus princípios, , nem com compadrios e nem com oportunistas de ocasião, ouvirei com todo o gosto sugestões de todos os quadrantes políticos, desde que elas comportem o bem do Povo, da Democracia e da Liberdade

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